UMA VERDADEIRA EPOPEIA

    Rio de Janeiro, 05 de Janeiro de 2012.  


    Como sabemos, o mês de Janeiro lembra férias. Tanto na área escolar quanto na profissional. A relação é intrínseca à férias em virtude da compatibilidade dos pais poderem viajar com seus filhos, sem prejudicar suas frequências às aulas. E isso me lembra uma viagem que fiz a Sergipe, lá pelo início da década de 1960. Tinha eu uns 9 ou 10 anos, quando minha mãe, acompanhada por um amigo que hoje é padre e também oriundo da mesma cidade em que ela nasceu, e que é como se fosse de nossa família até hoje, acompanhado dos meus outros irmãos, fomos em viagem à terra natal dela, Sergipe. O transporte que foi utilizado naquela época, acreditem, foi o trem. Sim! O trem. Embarcamos na gare de D, Pedro II (que todos conhecem como Central do Brasil). A viagem iniciava nesta estação, direcionada para Belo Horizonte. Nesta, foi necessário trocar de composição porque a partir daí a bitola era estreita. E o que isso queria dizer? Simples: os trilhos do trem desde o Rio de Janeiro até Belo Horizonte eram mais largos do que os que existiam a partir daí para o restante da viagem. Pelo decorrer do tempo que se passou, hoje já não me lembro do total de acontecimentos que se sucederão nessa viagem e, sim, alguns episódios que ficaram gravados na minha mente juvenil. Também não sei precisar quantos dias duraram tal viagem, só sei que devemos ter levado, no mínimo, uma semana. Haja vista que havia a necessidade de se trocar de composição em vários trechos da viagem por motivos vários. A deficiência organizacional era enorme para aquela data. Como disse, a primeira parada foi em Belo Horizonte. Daí seguimos até a cidade de Montes Claro, ainda em Minas Gerais, onde desembarcamos para que o nosso amigo José visitasse um tio que morava nessa cidade. Não sei dizer quanto tempo ficamos lá. Continuando a viagem, saímos de Montes Claros em direção à uma cidade chamada Monte Azul, já no estado da Bahia. E lá tivemos que pernoitar por uma noite. Naquela época seria um exagero denominar tal lugar como uma cidade. Era, sim, um lugarejo. E sem nenhuma conotação discriminativa, por favor! Não havia luz elétrica e nenhuma condição que se pudesse considerar como humana, para aquela época. De interessante, lembro-me daquela sensação de estar em outro mundo. O local iluminado por velas e lampiões. Inclusive, numa certa passagem, havia uma grande fogueira na rua onde o pessoal estava assando um animal inteiro, que não sei informar qual. Outro episódio que não esqueço nessa cidade foi o momento em que saímos do hotel. Chamar aquilo de hotel é muito mais do que o exagero já dito. Nem pensão poderíamos classificar aquele lugar. Mas o interessante foi que ao passarmos pelo que poderia ser considerada a recepção do mesmo, havia um sujeito dormindo sobre uma mesa, com velas acesas sobre ela, que lembrava a de um defunto sendo velado. E isso foi motivo de brincadeira e gozação por um bom tempo em nossa viagem. Uma outra lembrança nesse percurso foi o de um acidente envolvendo uma outra composição que vinha em sentido contrário e que descarrilhou dos trilhos, obrigando a nossa ter que ficar parada em determinado lugar da estrada, e isso se deu às altas horas da noite. Lembro que era uma noite enluarada e que dava para visualizar o brilho das águas de um rio, há uns 100 ou 200 metros de onde o trem estava retido. O fato foi que, ao raiar do dia, a maioria das pessoas que estavam nessa viagem foram banhar-se naquele rio da visão brilhante da noite. E nós estávamos lá, também. E podem imaginar a festa que foi. Principalmente para três crianças criadas numa cidade como o Rio de Janeiro. Coisa impossível de se ter ou ver aqui. Daí fomos até Salvador. O fato interessante que lembro foi que lá havia ônibus elétrico. Coisa que ainda não havia em nossa cidade, só depois é que foi implantado isso aqui no Rio de Janeiro. Outro fato a citar foi o dos vendedores ambulantes que haviam nas paradas do trem. Vendiam frutas diversas e água. Esta era meio barrenta, que deviam ser de poço ou de algum riacho local. E nós a bebíamos sem medo ou sem susto. E sem nojo. Fico imaginando essas crianças de hoje (e até alguns adultos), caso tivessem que fazer essa mesma viagem e nessas mesmas condições. Não chegamos até Aracaju. Desembarcamos numa cidade chamada Salgado, que ficava há uns quarenta quilômetros da cidade de Lagarto, que era o nosso destino final. Lá já nos esperava um tio (chamado Antonio), que nos recebeu e nos levou para a cidade que era o nosso destino. E assim terminou aquela nossa epopeia. 

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