LEMBRANDO DO BAIRRO DE ANCHIETA


     Com a passagem do tempo e dos anos na vida de todos, podemos observar as muitas mudanças que acontecem. E elas se dão em todos os âmbitos, sentidos, modos e outras coisas mais.

     Então, ao ir morar no Bairro de Anchieta, saindo lá da Penha Circular, pude observar umas certas mudanças. A primeira delas a fraternidade maior entre os vizinhos da rua.
Tínhamos na casa (terreno) ao lado uma família grande. Este casal já possuía filhos com bem mais idade que a nossa. E um deles era paraplégico. Ficara assim pela ação da terrível doença "paralisia infantil" quando tinha uns nove ou dez ano de idade. Ele deveria possuir uns 20 anos a mais que eu, com meus 12, 14 anos.
     No entanto, adquirimos um entrosamento muito bom. Ele costuma ficar sentado à uma cadeira na parte da tarde em sua varanda. E era admirado por muitos outros vizinhos. Tínhamos muita identificações. Uma delas era gostar de passarinho. Tínhamos alguns deles em gaiolas, o que hoje é até repudiado. Mas aqueles eram outros tempos.
     E ele, apesar de sua insuficiência física, não se deixava abater. Sempre buscava defender "um qualquer" que lhe permitia adquirir certas coisas.
Então, ele fazia gaiolas e as vendia. Também fazia pipas e até moía vidro e vendia aos garotos da área.
     Também gostava, assim como eu, de ler gibis. E eu, que os tinha muito, o emprestava alguns para ler. Ah, sim. Fazia balões no São João. Emendava duas, três ou quatro folhas de papel fino e assim o balão era criado. E nós os saltávamos na festinha que era feita em seu terreno. Claro que o ajudei em vários ocasiões. Mas outros também o faziam. Era uma pessoa surpreendente para o estado físico que possuía. Mas buscava ser o mais independente que podia.
     Nas festas de Natal eu sempre estava lá. E não posso deixar de informar que quase sempre aos sábados e domingos nós nos reuníamos para jogar baralho. O famoso jogo de "buraco". Com seu pai e um dos dois sobrinhos que moravam também ao lado. E às vezes o "tempo esquentava" entre nós. Mas era tudo passageiro. As discussões, logo após, viravam até piadas e gargalhadas.
     E como o tempo é implacável, se incumbe de cortar esses laços. Quase sempre pela morte de um desses personagens. Uma pena.
Mas todo o tempo em que morei e vivi em Anchieta, pude gozar dessas amizades. E assim, e isto, deve ter acontecido com quase todos que viveram no bairro.

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