UM SEPTUAGENÁRIO CONVICTO
27 de Janeiro de 2022. Uma data muito marcante na vida de quem, num dia como o de hoje, completa setenta anos de idade. Ou seja: transforma-se num septuagenário.
Oriundo de uma família onde grande parte de seus membros atingiram idades bem avançadas, inclusive com um deles chegando a alcançar cem anos, isso não representa nenhum espanto, bem como nenhuma surpresa. Mas é um caso para muitas considerações.
Sendo uma pessoa de trato difícil, possuindo uma personalidade rígida, nunca se deixando levar, por nada e nem por ninguém, foi fácil adquirir antipatias. Dentro e fora da família, sendo que nesta última, por ser de tamanho enorme, não chegou a conhecer todos os seus membros. Mas foi deles o que mais conheceu outros.
Isso não chega a ser coisa tão relevante porque convívio próximo só aconteceu com poucos. E isso se explica com a origem dos pais sendo do Nordeste, onde lá ficou a maioria, e outros debandaram para locais diversos, alguns sem nem manterem contato com os demais, tampouco fazendo questão de dizerem onde estavam.
O Nordeste tem essa peculiaridade. Grandes famílias foram obrigadas a buscar uma vida melhor, abandonando seu torrão natal, sem que grande parte delas conseguisse manter vínculo familiar, porque com o tempo cada um formou a sua e alguns até esqueceram suas origens.
Então, possuindo um jeito difícil, não teve bom convívio com os irmãos. Sendo que a disparidade era no tocante aos modos rígidos que sempre adotou, não aceitando nenhum tipo de distorção. Principalmente a moral. E isso criou bloqueios que repercutiram quase a vida toda, sem nenhuma condição de aproximação entre todos. Foi , e ainda é, uma situação difícil e muito complexa, isso.
Mas ao fim e ao termo, acabou-se vivendo do jeito que se pode. Tanto um lado quanto o outro. E entre ganhos e perdas, por certo cada um puxará a brasa para a sua sardinha, afirmando ter tido mais o primeiro que o segundo. Vida que segue.
É triste alcançar-se tal idade dentro de uma situação dessa. Têm-se a impressão de que se nadou, nadou, e morreu na praia, lembrando um jargão que era usado pela torcida do clube América do Rio. Mesmo que as circunstâncias foram acostumadas, fazendo parte até da própria naturalidade deste vivente.
Esse é o preço que se tem que pagar. Mas a consciência tranquila e a sensação do dever cumprido, são fatores importantíssimo nisso, porque quem escolheu viver dentro de padrões rígidos de correção, não encontrou e nem esbarrou em nenhuma situação de horror que pudesse trazer-lhe dificuldades. Inclusive sempre com a proposta de ajudar aos outros, mas dentro de um padrão próprio e não de acordo com o que o necessitado quisesse.
E isso também foi desgastante, haja vista que cada um quer se aproveitar daquilo que puder, lixando-se para o outro. Mesmo os que lhes auxiliem nas dificuldades. Mas nem Freud e seus pares conseguiram, tampouco conseguem, explicar isso nesses tempos atuais.
Sendo assim, aqueles que alcançam tais circunstâncias, a única coisa que não pode, e não deve, é chorar o leite derramado. Tudo o que aconteceu nesta vida já ficou para trás. Daí que é ter força e coragem para resistir até os dias finais de vida que nesta idade já define estar mais próximo do fim do que outra coisa.

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