UMA PASSAGEM RÁPIDA POR UM SEMINÁRIO DE PADRES

 
     Eu devia ter uns treze ou quatorze anos de idade quando apareceu lá em casa o "Zé", como nos o tratávamos. Ele foi conosco para Sergipe uns anos anteriores a isso. Nesta época era ainda um seminarista. E convidou-me a passar uns dias lá no seminário, porque era período de férias e com aquiescência de meus pais, eu fui.
     Lembro de certos episódios dessa época. Um deles era assisti-lo desenvolver alguns trabalhos manuais que ele fazia para auto subsistência, haja vista que não era de família tão abastada que lhe pudesse fornecer recursos durante o período em que estudava para ser padre.
     Antes de mais nada há que se dizer que ele era um artista. Pintava quadros, esculpia imagens em pedaços de tronco de árvore. Inclusive vi uma dessas suas obras. Ele esculpiu N. Senhora num desses pedaços de tronco de madeira.
     Certa vez, também, chegou lá em casa, e havia uma chapa plana de chumbo e ele a pegou, esculpindo com um canivete uma imagem de uma ponte de pedra sobre um riacho. E cai na besteira de levar tal obra para a escola. A professora encantou-se com ela e chegou a insistir com veemência para que eu a cedesse a ela. Claro que não aceitei isso.
     Também costumava trançar fios de plástico para fazer bolsas. Pegava os fios coloridos e as montava, vendendo-as a quem se interessasse por elas. E com isso angariava meios de sobreviver por sua conta, ainda um seminarista.
     Mas das lembranças mais marcantes desse período em que estava no Seminário com José, foi que ele incumbiu-se de um passeio através da estrada de ferro que subia até o Corcovado. Fomos eu, ele e mais um senhor que era seu amigo, também, a pé.
Seguimos paralelamente ao trilho até lá em cima.

      Naquela época, década de sessenta, os tempos eram outros. Não havia nenhum risco nessa epopeia. Hoje em dia não há como alguém pretende-la realizar, sem correr risco de assalto ou algo pior. E até mesmo aquela quantidade de veios de água cristalina que escorria das encostas pedregosas daquela região, nos servia para saciar a sede nesse trajeto ou percurso. Hoje também já não é mais aconselhável tal consumo em função da poluição ambiental que atinge aquela região.
      E fiquei no Seminário por uns dias. Assustando-me à noite, quando saía do meu quarto para ir ao de José, e olhava aqueles corredores cumpridos e desertos, no escuro, e esporadicamente observava o deslocamento de algum seminarista com a batina sacudindo de um lado ao outro, chegava a assustar.
      Aquela situação não chegou a estimular-me a ser um padre no futuro. Mas foi um período de bons momentos na minha adolescência. E não dá para deixar de lembra-lo vez ou outra.

quarta-feira, 24 de outubro de 2018

BAGUNCEIROS DE ONTEM E DE HOJE. QUANTA DIFERENÇA.

     Não sei se é comum às pessoas não conseguirem lembrar-se de todo o período de infância e até mesmo adolescência. Penso ser isso natural porque não consigo lembrar-me desses períodos completos na minha própria vida. Apenas alguns relances me ficaram gravados.
     Lembro parcialmente do meu primeiro e segundo anos de primário. Nomes de colegas e das professoras. Também pouca coisa do terceiro ano, bem como do quarto ou quinto deles. E nesse último, recordo-me que fui parar na pior turma da escola. A bagunça rolava solta, e nem lembro quem era a professora.
     Então, havia um colega que sentava-se ao meu lado, cuja única movimentação que fazia era ficar desenhando os personagens dos livros de história. E lembro perfeitamente que ele uma vez desenhou D. João VI. O garoto era craque no desenho. E se aproveitou tal verve, deve ter tido uma vida já garantida na idade adulta.
     Mas nessa turma bagunceira ao extremo, lembro também de uma outra brincadeira que alguns alunos faziam. Costumavam mastigar papel, e um tempo depois os tiravam da boca, fazendo bolotas com eles, e atirando-as em direção ao teto, onde grudavam e ficavam por lá. Era a coisa mais engraçada que se podia observar.
     Sem querer considerar-me um santinho, não costumava participar das bagunças pesadas. Porque lá em casa o pau comia solto no meu lombo, se alguma reclamação de professor batesse lá. Minha mãe era de uma severidade extrema, e colocava seu dedo em riste ao meu rosto, dizendo que eu tivesse "vergonha na cara". Daí que o respeito tinha que ser observado, querendo ou não.
     E até mesmo os bagunceiros daquela época não passavam nem perto dos bagunceiros da atualidade. Primeiro que os professores eram muito diferentes dos atuais. Se faziam respeitar. Segundo, que a estrutura moral que havia naquele tempo já não existe mais, também, onde os próprios pais exigiam dos professores rigor pleno e total com seus filhos.
     Dessa forma é que vive-se a reclamar de tudo e de todos hoje em dia, mas não se observa essas mudanças morais que se deram dos tempos idos para os de hoje. E assim é que vemos os pais e também os professores serem agredidos e até assassinados pela garotada desses dias atuais. Um horror!

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